Projeto Lado a lado em Peruíbe
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O Encontro entre Culturas nasceu da convergência de trajetórias, afetos e propósitos entre duas lideranças que passaram pelo Fenômenos Academy, em edições distintas do programa. Ana Lúcia Chagas, idealizadora do projeto Pra Ela Jogar, integrou a 2ª edição do Fenômenos Academy, em 2025, enquanto Itamirim, Murobixaba (liderança maior) da Aldeia Tabaçu Reko Ypy, participou da edição de 2023. A aproximação entre ambas se deu por meio do grupo de WhatsApp do programa, revelando a potência da rede construída pelo Fenômenos Academy e possibilitando o florescimento de vínculos que deram origem a uma experiência profundamente transformadora.

O jogo Encontro entre Culturas configurou-se como um território simbólico de troca, escuta e aprendizado, reunindo 19 meninas do projeto Pra Ela Jogar, de Carapicuíba, e 14 meninas da Aldeia Tabaçu Reko Ypy, em Peruíbe. Em um sábado de sol pleno, as participantes iniciaram a vivência com uma imersão no território indígena, acompanhadas pela Fundação Fenômenos, que esteve presente ao longo de todo o encontro, testemunhando e respeitando os rituais, os gestos cotidianos, as práticas culturais e os tempos próprios da aldeia.
A experiência inicial foi marcada pela aproximação com os modos de vida indígenas, seus valores comunitários, a relação ancestral com a terra, com a água e com o tempo. Em seguida, as meninas participaram de um amistoso de futebol concebido não como disputa, mas como celebração do encontro. Realizado sem vencedores, o jogo teve como propósito fortalecer a união, o respeito mútuo e a cooperação, rompendo com lógicas competitivas e evitando rivalidades. Ao final, todas receberam medalhas de participação, símbolo de que, naquele território de encontro, todas saíram igualmente vencedoras.
Após o jogo, o grupo retornou à aldeia para o compartilhamento do alimento e para um momento de lazer e contemplação, com banho de rio e convivência junto à natureza, aprofundando os vínculos criados ao longo do dia e reafirmando a centralidade do coletivo, da partilha e da presença.

O encerramento da vivência foi marcado por uma roda de apresentação, na qual cada menina compartilhou seu nome e sua idade. Para muitos povos indígenas, o nome não se restringe a uma designação civil, mas constitui um chamado espiritual, um vínculo profundo entre a pessoa, sua origem e sua missão de vida. A atribuição do nome ocorre por meio de um ritual tradicional conhecido como Nhemongarai, no qual, a partir de sonhos, visões e orientações espirituais — frequentemente recebidos por uma anciã ou liderança espiritual —, o nome é revelado como expressão do caminho que aquela pessoa está destinada a trilhar.
Embora a maioria das crianças receba seu nome ainda ao nascer, há casos em que a nomeação acontece anos depois, quando a missão de vida se torna mais nítida. Durante um longo período da história brasileira, o uso de nomes indígenas foi proibido nos registros civis, o que transformou o simples ato de dizer e afirmar o próprio nome verdadeiro em um gesto de resistência, retomada identitária e afirmação cultural. A partilha da idade, por sua vez, carrega um valor igualmente profundo, pois o tempo vivido está intrinsecamente ligado ao respeito aos mais velhos e ao reconhecimento da sabedoria ancestral, pilares estruturantes das culturas indígenas.

A vivência contou ainda com a presença e o acompanhamento da Kunhãdju – Mãe Anciã, cuja atuação espiritual se manifestou por meio de bênçãos, palavras e gestos de cuidado, sustentando o encontro em uma dimensão ancestral e coletiva. Ao final, a Murobixaba Itamirim dirigiu uma mensagem às meninas, incentivando-as a honrar seu tempo, dedicar-se aos treinos, cultivar seus sonhos e reconhecer o valor do próprio caminho, compreendendo que cada trajetória carrega um propósito singular.
O Encontro entre Culturas encerrou-se envolto em sentimentos de gratidão, aprendizado e fortalecimento dos laços interculturais, deixando marcas profundas na memória das participantes e reafirmando o poder do esporte, da cultura e do diálogo como caminhos legítimos de transformação social, reconhecimento mútuo e construção de futuros compartilhados.


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